Com código “Zara zerou”, loja de departamentos barrava pessoas negras ou “simples demais”

O caso só foi descoberto porque uma delegada de polícia negra foi impedida de entrar na loja da rede Zara, no Shopping Iguatemi, em Fortaleza, Ceará. A boutique não sabia que Ana Paula Barroso, adjunta do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis da Polícia Civil do Estado, era uma autoridade policial. E, por isso, o estabelecimento disparou o código “secreto” entre os funcionários, alertando que alguém “suspeito” entrava na loja.

A mensagem sonora sigilosa que os colaboradores da loja usavam era “Zara zerou”. Com essa frase, dita nos autofalantes os funcionários identificavam aos colegas que havia ingressado no estabelecimento alguém “estranho”. Essas pessoas “suspeitas” poderiam ser negras ou alguém que estivesse trajado simples demais para os padrões da Zara.

Uma ex-funcionária da loja confirmou aos policiais como funcionava o esquema de “detecção”:

- A loja, quando identificava que uma pessoa estava fora do padrão de cliente e estava ingressando naquele estabelecimento, era dito no sistema de som a frase ‘Zara zerou' - explicou.
- Isso era um comando que era dado pra que todos os funcionários da loja ou, pelo menos, a alguns. A partir de então, começassem a observar aquela pessoa não mais como consumidor; mas como suspeito em potencial que precisava ser mantido sob vigilância da loja – contou o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Sérgio Pereira dos Santos.

Após a descoberta, a Assessoria de Comunicação da Zara alegou que a delegada foi barrada porque estava tomando sorvete quando entrou na loja e não estaria usando máscara. Mas, a Polícia Civil confirmou que clientes brancos nas mesmas condições entraram.

O gerente da loja, Bruno Filipe Simões Antônio, 32 anos, foi indiciado por racismo.

Após a investigação, a delegada Ana Paula Barroso desabafou:

- Eu vou ser sempre abordada porque eu gosto de andar simples no shopping? Às vezes de havaianas, um pouco despenteada, é o meu jeito despojado de andar. Eu não preciso andar com uma placa de que sou autoridade policial para ser respeitada - lamentou.

E acrescentou:

- Você percebe a sutileza do comportamento preconceituoso, da fala, da abordagem. E é uma suspeita muito forte. Mas até você ter um indício para você dizer: 'você está preso', eu preferi ter cautela, agi com prudência, de não me identificar (como delegada), perguntar realmente à segurança do shopping e só ali, se fosse pra fazer uma ação, eu fiquei tão assim, sem reação, que quando ele falou várias vezes 'me desculpe, eu errei com a senhora', eu disse: 'eu queria só que você me dissesse por que você fez isso' - relatou a delegada.

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