Seis anos após perder os braços, jovem vira fenômeno da natação paralímpica

Samuel tinha nove anos, em janeiro de 2015, quando, ao tentar pegar uma pipa enroscada em uma árvore, em Campinas, interior de São Paulo; os fios elétricos provocaram um choque tão violento no corpo frágil da criança que o fez perder os braços.

Seis anos depois do terrível acidente, Samuel da Silva de Oliveira, agora com 15 anos, deu a volta por cima: ele é um fenômeno da natação paraolímpica dos Jogos de Tóquio 2020. Esporte que ele aprendeu e se apaixonou, quando fazia fisioterapia após o acidente em que perdeu os membros superiores.

- Nunca havia parado para assistir provas de natação. Foi na fisioterapia que tive essa paixão pela água, me sentia bem na piscina. Foi onde tudo começou. Antes, quando ia a festas, ficava na borda da piscina, nem sabia nadar. Agora, participo de competições - conta.

Na fisioterapia, na piscina terapêutica, Samuel insistia em fazer exercícios de natação. Então, foi encaminhado para a ala esportiva da AACD, para praticar como uma forma de tratamento.

E não demorou para o menino mostrar todo o seu talento. Nos primeiros dias após o acidente, Samuel começou a reescrever a própria história.

- Desde o hospital, já no quarto, comecei a encontrar soluções. Lembro-me que pedi caderno e lápis de cor para colorir com os pés. Tomava suquinho, de canudo, segurando com os joelhos. Cheguei a jogar videogame com os pés. Desde o hospital, sabia que tinha habilidade com as pernas e isso foi de uma ajuda muito grande - lembra o atleta.

O menino vinha treinando bem, mas, aí veio a pandemia e paralisou as atividades de Samuel por alguns meses. Foi o namorado da mãe quem conseguiu – com um amigo – que ele pudesse frequentar o clube paulista Hebraica.

Lá, o adolescente passou a disputar com competidores mais velhos, de até 20 anos, e teve que se esforçar muito mais. O resultado veio em junho de 2021, quando ele obteve o índice em seletiva no Centro Paralímpico Brasileiro. O tempo dele foi de 36,71.

- Fiz o índice no Brasil, haviam liberado. Agora estão questionando, mas espero que dê tudo certo. De qualquer maneira, sou muito grato à Hebraica, que me abriu as portas em um momento de dificuldade, acreditou em mim e continua ao meu lado. Espero poder voltar a treinar pelo clube, principalmente em momentos como este, perto de competições importantes - afirma Samuel.

Enquanto o departamento jurídico do clube busca resolver o imbroglio, Samuel vai comemorando seus feitos.

A felicidade de Samuel não estaria completa se os dirigentes da Hebraica não tivessem conseguido arrecadar, em uma vaquinha, o valor necessário para a colocação de duas próteses de R$ 197 mil.

Isso era um sonho antigo do rapaz, que queria muito voltar a realizar tarefas sozinho, como se vestir e comer por si só.

- Colocar as próteses e ir à Paralimpíada são dois sonhos que andam juntos. Vou poder fazer de novo coisas muito simples, que só quando perdi percebi mesmo o valor: comer sozinho, por exemplo. Por outro lado, se eu puder disputar os Jogos, será outro sonho realizado, já que estarei abrindo um caminho para um futuro promissor. É muito gratificante ter chegado até aqui desta forma, é uma experiência nova, treinar com mais velhos, aprender coisas novas. Nunca nada é fácil, mas nunca podemos baixar a cabeça - pontua.

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