Nobel de Química premia francês e japonês por explicar por que a vida 'escolhe um lado'


O Prêmio Nobel de Química de 2026 foi concedido nesta quarta-feira (7) ao francês Henri B. Kagan e ao japonês Kenso Soai por descobertas que ajudam a explicar como reações químicas podem produzir apenas uma das duas versões espelhadas de uma molécula. Os dois vão dividir o prêmio de 12 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 6,2 milhões.
Muitas moléculas, como os aminoácidos que formam as proteínas, existem em duas formas que são imagens espelhadas uma da outra, como a mão direita e a esquerda. Essa propriedade se chama quiralidade. Os seres vivos usam quase só uma das versões, fenômeno conhecido como homoquiralidade. Em laboratório, porém, as reações costumam gerar as duas formas em partes iguais.
A questão tem impacto direto na produção de medicamentos, porque cada versão da molécula pode agir de um jeito no organismo. O caso mais conhecido é o da talidomida, receitada a grávidas nos anos 1950: uma das versões tratava o enjoo, e a outra provocou malformações graves em milhares de bebês.
Kagan, nascido em 1930 e professor emérito da antiga Universidade Paris-Sud, hoje integrada à Universidade Paris-Saclay, descobriu em 1986 o chamado efeito não linear, que permite obter um excesso maior de uma das versões do que se julgava possível. Soai, nascido em 1950 em Hiroshima e professor emérito da Universidade de Ciências de Tóquio, publicou em 1995 a primeira reação com potencial para ser homoquiral, baseada na autocatálise, em que o produto acelera a própria formação. Em 2003, conseguiu uma reação que gerava só uma das imagens espelhadas.
"Além da própria vida, ninguém havia alcançado esse feito anteriormente", afirmou o Comitê Nobel em comunicado. Para o presidente do comitê, Heiner Linke, os dois deram solução a um mistério químico com mais de um século. Em entrevista por telefone, Soai disse que aquele era "um dos dias mais emocionantes" de sua vida.
O professor Robert Mokaya, presidente da Royal Society of Chemistry, do Reino Unido, afirmou que diferentes versões de uma molécula podem ter efeitos biológicos completamente diferentes e que, por isso, o tema é crucial para encontrar medicamentos eficazes.
