Antropólogo que fala de ansiedade e emprego vira fenômeno entre jovens chineses
Um professor de antropologia de 54 anos se tornou uma espécie de ídolo entre jovens chineses ao falar de um tema delicado no país: a ansiedade de uma geração que enfrenta dificuldade para encontrar emprego e se sente pressionada a corresponder a expectativas. Biao Xiang, que dirige o Instituto Max Planck de Antropologia Social, na Alemanha, lota auditórios e é procurado pela imprensa chinesa, segundo reportagem da BBC.
Em um encontro recente em Singapura, cerca de 500 pessoas, a maioria chineses que vivem no exterior, ouviram o professor por mais de uma hora. No fim, dezenas fizeram fila para tirar fotos com ele. Xiang também deu palestras em universidades chinesas, entre elas a Universidade de Pequim, onde estudou. Uma delas foi transmitida ao vivo porque o auditório lotou, e a expressão "em caso de dúvida, pergunte a Biao Xiang" virou ditado popular, segundo a imprensa chinesa.
O pesquisador estuda as mudanças sociais na China e em outros países da Ásia. Ele descreve uma juventude insegura em um país poderoso e afirma que os jovens recorrem com frequência a sistemas de aprovação, como exames competitivos e empregos estáveis, e transformam esse reconhecimento em medida de autoestima, o que pode ser cansativo e prejudicial.
Xiang cresceu em Wenzhou, cidade do sudeste chinês que virou polo industrial e de pequenos empresários nas décadas de abertura econômica. Segundo ele, a antiga equação "trabalho duro igual a emprego seguro" deixou de funcionar depois que a economia enfraqueceu na pandemia. O desemprego entre jovens chineses chegou a 21,3%, e o governo deixou de publicar esses dados em meados de 2023, informa a BBC.
Para descrever o fenômeno, o antropólogo usa imagens como a de "flutuar", sobre quem trabalha sem descanso apenas para se manter, como um beija-flor que bate as asas o tempo todo. Ele também fala da importância do "próximo", o espaço entre a própria pessoa e o mundo, que, segundo ele, costuma ser deixado de lado e gera sensação de desconexão.
"Todos sabem onde está o problema, mas se recusam a enfrentá-lo", disse Xiang à BBC. Em um país em que o descontentamento é politicamente sensível e sujeito a censura, ele é considerado uma figura pública incomum. O próprio presidente Xi Jinping já reconheceu a existência de um descompasso entre as necessidades da população e o desenvolvimento do país.