Super El Niño reacende o medo em vítimas da enchente no RS e da seca na Amazônia

A formação de um novo El Niño, que pode estar entre os mais fortes já registrados segundo o Met Office, serviço meteorológico nacional do Reino Unido, tem provocado ansiedade em moradores de regiões atingidas por eventos extremos recentes, mostra reportagem da BBC News Brasil. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico e esteve associado às enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul e às secas históricas na Amazônia em 2023 e 2024.

Em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a professora aposentada Sandra Motta, de 57 anos, deixou a casa em 3 de maio de 2024 por causa da inundação e só voltou em julho. Por medo de uma nova cheia, comprou um apartamento em uma área alta da cidade, para onde se mudou há cerca de dois meses. Ela relata cansaço e tensão física quando lê notícias sobre o El Niño. A reportagem procurou a Prefeitura de Canoas, que não respondeu.

No Amazonas, a comunidade de Urucury, em Manicoré, enfrentou igarapés secos e dificuldade de navegação no rio Madeira nas últimas estiagens, além da perda de plantações de milho. Segundo o Imazon, a Amazônia perdeu 3,3 milhões de hectares de superfície de água em 2023 e mais 2,2 milhões em 2024. A líder comunitária Jhuacelly Campos afirma que neste ano o igarapé começou a secar em agosto, antes do habitual. A prefeitura de Manicoré informou que criou em junho uma lei municipal de mudanças climáticas, com ações de prevenção e brigadas voluntárias.

O psiquiatra Christian Kieling, que coordena um projeto de atendimento a vítimas da enchente no Hospital Moinhos de Vento, considera natural o receio de quem passou pelo desastre. A professora Joana Narvaez, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), alerta que essas reações não devem ser lidas necessariamente como transtornos a serem tratados com remédios, porque podem ser respostas funcionais.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia chamaram esse quadro de “estresse climático antecipatório”. Para o fundador da Fundação Amazônia Sustentável, Virgilio Viana, faltam planos de adaptação integrados entre municípios, estados e União, já que as ações costumam ser emergenciais e chegar depois do desastre.