DNA em moscas revela onças e outros mamíferos 'escondidos' na Mata Atlântica
Moscas e mosquitos ajudaram cientistas a identificar onças, primatas e outros mamíferos que vivem em um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica do Brasil, o Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais. O estudo, publicado no fim de setembro na revista científica European Journal of Wildlife Research, analisou o DNA de animais encontrado nos insetos.
A técnica, chamada iDNA (DNA derivado de invertebrados), aproveita o material genético que moscas e mosquitos acumulam ao se alimentar de sangue, fezes ou carcaças. Com isso, é possível saber quais animais circulam em uma área sem precisar vê-los ou capturá-los.
Os pesquisadores instalaram armadilhas em seis pontos da região sul do parque, que tem cerca de 36 mil hectares. As coletas foram feitas em quatro dias da estação chuvosa, em fevereiro de 2023, e em outros quatro da estação seca, em julho de 2024. Foram identificadas 33 unidades taxonômicas de mamíferos silvestres, 22 delas até o nível de espécie.
Entre os animais detectados estão a onça-pintada, a onça-parda, o gato-do-mato-pequeno, o muriqui-do-norte, a anta, o tamanduá-mirim, o bugio, o macaco-prego e o tatu-galinha. Mesmo com pouco tempo de amostragem, a análise recuperou registros de 31 das 55 espécies de mamíferos terrestres esperadas para a área, segundo levantamentos anteriores, o equivalente a 56%.
As moscas se mostraram mais úteis que os mosquitos: detectaram 30 unidades taxonômicas, contra 18. Segundo os pesquisadores, isso ocorre porque as moscas têm contato com mais fontes de material genético, enquanto os mosquitos dependem principalmente do sangue. A época da coleta também fez diferença: vestígios de felinos apareceram só na estação chuvosa, e os de anta e capivara, só na seca.
O animal que motivou parte da pesquisa, porém, não apareceu. Nenhuma amostra trouxe DNA do tatu-canastra, espécie criticamente ameaçada na Mata Atlântica que vive no parque, apesar de as armadilhas terem sido instaladas perto de tocas monitoradas.
Para os autores, os resultados mostram o potencial do método para levantamentos rápidos de biodiversidade, "incluindo a detecção de espécies raras, como grandes felinos".