Moda das fotos anos 80 no ChatGPT expõe dados biométricos, alertam especialistas
A tendência de usar inteligência artificial para transformar selfies em retratos inspirados nos anos 80, com cabelos volumosos, fotos granuladas e cores neon, se espalhou pelo Instagram, pelo TikTok e pelo X. As imagens são criadas a partir de comandos no gerador de imagens do ChatGPT que pedem ao usuário que envie as próprias fotos. Especialistas ouvidas pelo Serviço Mundial da BBC alertam que, com isso, as pessoas podem estar compartilhando muito mais do que imaginam.
"Ao enviar fotos para uma IA, você está compartilhando alguns dos dados mais sensíveis que possui", afirma Carissa Véliz, professora associada de filosofia no Instituto de Ética em IA da Universidade de Oxford. "As imagens podem conter metadados como localização, mas também fornecem dados biométricos." Segundo ela, esse tipo de dado não pode ser alterado se for comprometido: "Você pode trocar sua senha se ela for roubada. Mas não pode trocar de rosto."
Para Catarina Doria, especialista em ética da IA, essas modas virais acontecem "porque são benéficas para as empresas de IA generativa", já que incentivam o envio de cada vez mais imagens. Ela chama o fenômeno de "fun for data" (diversão por dados) e diz que os riscos podem ser maiores do que em redes sociais ou aplicativos de namoro, porque os usuários costumam enviar várias fotos de alta qualidade, feitas para mostrar o rosto com clareza.
As especialistas também apontam a incerteza sobre o uso futuro dos dados, a criação de perfis detalhados para publicidade direcionada e o avanço dos deepfakes. "Nem sabemos exatamente para onde eles vão, porque muitas empresas comercializam essas informações, muitas vezes de forma irresponsável", diz Véliz.
Em nota à BBC, a OpenAI afirmou que confiança e privacidade são pilares centrais de seus produtos e que os usuários mantêm o controle sobre suas informações e podem excluir o histórico de conversas. Segundo a empresa, no modo Chat Temporário as conversas não são salvas, lembradas nem usadas para treinar seus modelos.
Entre as recomendações dos especialistas estão evitar publicar fotos de crianças, preferir imagens de resolução mais baixa, escolher plataformas consolidadas, revisar as configurações de privacidade para impedir o uso do conteúdo no treinamento de modelos e desativar recursos de memória desnecessários dos chatbots. "Privacidade é poder, porque protege as pessoas contra possíveis abusos", afirma Véliz.