Por que o estudo Chance muda o transplante de fígado em pacientes graves
Um estudo internacional com participação de pesquisadores brasileiros mostrou que o transplante de fígado pode mudar o prognóstico de pacientes em estado gravíssimo, com a doença hepática comprometendo ao mesmo tempo órgãos como rins, coração, pulmões e o sistema nervoso central. Batizado de Chance, o trabalho envolveu 63 centros especializados de quatro continentes, três deles no Brasil.
Esses pacientes costumavam ficar de fora da fila. “Era considerado muito grave para ter condição de ser transplantado e de se beneficiar do transplante”, disse Alberto Queiroz Farias, professor titular de Gastroenterologia e Hepatologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP).
O estudo, publicado em revistas da especialidade, mostrou que o transplante em pacientes com dois a três órgãos comprometidos, além do fígado, troca o alto risco de morte por uma sobrevida que pode passar de 80%. O procedimento também recupera os outros órgãos afetados. “A sobrevida passa aí de 10% a 20% para 70 a 80%”, afirmou Wellington Andraus, professor titular de Transplantes de Fígado do HCFMUSP.
O Hospital das Clínicas de São Paulo fez 99 dos 612 transplantes do estudo. Na Ásia, parte das cirurgias usou um pedaço do fígado de doador vivo, possível porque o órgão tem capacidade de se regenerar.
Entre os pacientes está a aposentada Maria do Carmo Pereira da Silva, que teve cirrose causada por gordura no fígado, com efeito nos rins. Transplantada há quatro anos, ela conta que hoje cuida da gata em casa. Moisés de Sousa Carrilho, de 53 anos, teve cirrose causada pela hepatite C, recebeu um fígado novo, de doador desconhecido, em 2 de outubro e teve alta nove dias depois.
Segundo os médicos, o desafio agora é aumentar o número de doadores. Quase 50 mil pessoas esperam por um transplante no país, e mais de 2,3 mil precisam de um fígado. Eles defendem também a divulgação de protocolos de UTI para estabilizar rapidamente os pacientes graves. “O nosso desafio é identificar precocemente quem é uma pessoa grave que não está indo bem e buscar estratégias de oferecer o transplante a tempo”, disse Farias.