Papel mastigado citava repasses a Canella, diz PF; deputado eleito do RJ está preso
O deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), segundo mais votado do Rio de Janeiro, e o ex-secretário da Polícia Civil fluminense Marcus Amim estão entre os seis presos na quinta-feira (15) na nova fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal. Segundo as investigações, cujos detalhes foram mostrados no domingo (18) pelo Fantástico, da TV Globo, os dois têm ligações com um grupo que usava uma rede de 96 postos de combustíveis para lavar dinheiro, com movimentação que ultrapassa R$ 7 bilhões desde 2020.
A operação, contra a infiltração do crime organizado no poder público, cumpriu também 16 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Na quinta-feira (15), agentes estiveram na casa de Canella na Barra da Tijuca. A PF aponta que a organização tem vínculos com a milícia, o narcotráfico e a política no estado.
Foram apreendidos 20 carros de luxo, 49 joias e relógios, R$ 90 mil em espécie e mais de 30 armas com munições. Entre os bens identificados estão uma casa em Niterói avaliada em R$ 22 milhões e uma residência num resort na Flórida, nos Estados Unidos. Segundo a investigação, um dos suspeitos tentou comer uma planilha com a contabilidade do grupo quando os agentes chegaram; o papel citava repasses a “Márcio Canella”.
Para a PF, Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, atuava como articulador político do esquema e trabalhou para impedir fiscalizações. Ele indicou Amim para a presidência do Detran-RJ e, em junho de 2023, para a Secretaria da Polícia Civil no governo de Cláudio Castro. Amim, segundo a PF, operava para blindar o grupo e era sócio de laranjas: uma mulher com salário de R$ 1,8 mil movimentou mais de R$ 60 milhões. Também foram presos dois inspetores da Polícia Civil apontados como sócios ocultos de postos.
A defesa de Canella afirmou que ele “jamais integrou, apoiou ou se beneficiou de qualquer organização criminosa” e estranhou que a prisão tenha sido decretada dez dias após a eleição, com base em fatos de fase anterior da operação. O advogado de Amim não quis se pronunciar, e a defesa dos inspetores disse não ter tido acesso aos autos.
A prisão preventiva de Canella não tem prazo. Caberá à Justiça definir se ele poderá assumir a cadeira na Assembleia Legislativa do Rio.