Por que os protestos se espalham pela Europa: combustível, moradia e escolas

O aumento dos preços dos combustíveis e da energia, a insatisfação com o estado das escolas, a piora dos serviços públicos e a crise da moradia estão por trás de uma onda de protestos que se espalha pela Europa e já pesa na política de vários países. As preocupações com o poder de compra tornaram-se “um dos principais motores da política populista” no continente, segundo o cientista político Gilles Ivaldi, da universidade francesa Sciences Po.

O epicentro é a França, onde mais de 140 cidades tiveram atos. Os protestos começaram há quatro semanas com estudantes do ensino médio que reivindicavam melhores condições nas escolas e chegaram ao auge no sábado (17), quando cerca de meio milhão de pessoas foram às ruas contra o custo de vida. Parte das manifestações terminou em violência, com grupos mascarados atacando policiais, incendiando carros e saqueando lojas. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou toques de recolher, e o presidente Emmanuel Macron disse que “nada justifica a violência”.

Os saques tiveram efeitos fora das ruas. O aplicativo de revenda Vinted informou ter removido anúncios de produtos que podem ter sido roubados, e o governo francês convocou plataformas de comércio eletrônico para uma reunião. Lojas oficiais do Olympique de Marseille e do Lille foram saqueadas, e o jogo entre Toulouse e Troyes, do Campeonato Francês, foi adiado de sábado (24) para domingo (25) a pedido da prefeitura.

Na Espanha, segundo maior foco, os atos contra a crise habitacional atingiram Madri, Barcelona, Valência e outras 50 cidades, e o primeiro-ministro Pedro Sánchez dissolveu o Parlamento e convocou eleições antecipadas, segundo a Folha de S.Paulo. Há protestos menores na Itália, na Bélgica, em Portugal e na Grécia. Na Albânia, as manifestações foram motivadas por acusações de corrupção ligadas a um projeto imobiliário de luxo.

O movimento ocorre às vésperas de eleições importantes. Na França, a eleição presidencial será em abril e maio, e Marine Le Pen, do partido Reunião Nacional, lidera as pesquisas. O governo francês acusa grupos de extrema esquerda de incentivar a violência para favorecer Jean-Luc Mélenchon, do partido A França Insubmissa. Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni enfrenta eleições no próximo ano.

Políticos de partidos radicais, tanto de direita quanto de esquerda, argumentam que retomar a compra de energia da Rússia ajudaria a baixar o custo de vida. “Partidos populistas frequentemente apresentam os custos de energia como algo evitável e os atribuem às decisões políticas de governos”, afirma o professor de economia Jan Steckel, da Universidade Técnica de Munique.

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